Andanças com a infância

 andanças
   
     Recebi de uma amiga, via internet, um vídeo delicado e cheio de ternura chamado Caminhando com Tim Tim. Depois de ser tomada pela nostalgia de revisitar o passado e recordar minhas andanças com meus cinco filhos, comecei a refletir sobre os significados desse tão singelo registro sobre a caminhada de uma criança.
     Gostaria de falar inicialmente sobre a convivialidade. A convivialidade é a capacidade de uma sociedade em favorecer a tolerância e as trocas recíprocas das pessoas e dos grupos que a compõem; saber lidar com a convivência. Num mundo de tanta intolerância onde guerras silenciosas, ou nem tanto, dominam os noticiários e as redes sociais, proporcionar a uma criança a possibilidade do encontro é da maior importância.
    Vale ainda ressaltar que esse encontro espontâneo, que ocorre por parte da criança livre de preconceitos e julgamentos, é o início da construção da individuação desse ser através de suas escolhas. Outro ponto que vale ressaltar é o estabelecimento da rotina para o universo infantil.
A rotina externa tem uma grande importância para a integridade da psique que representa para essa criança um ambiente seguro no qual ela caminha com desenvoltura sabendo quais os obstáculos e com que pessoas vai encontrar. Esse ambiente seguro proporciona a ela a possibilidade de experimentação e observação das nuances dessa realidade: encontrar ou não uma das personagens, a presença ou não do gato, são prenúncios do jogo da vida.
Outro característica importante dessa caminhada, é a exploração sensorial que pode ser guiada, num primeiro momento, mas que a repetição trará elementos que serão vivenciados pelos pequeno. Pegar uma pedra, acariciar o pelo do gato, apertar a mão do morador de rua. sentir a textura das folhas das árvores caídas no chão, ouvir o barulho dos carros e dos pássaros, sentir o cheiro da vida que também tem seu ritmo próprio. Podemos dizer que essa experiência além de todas as qualidades de aprendizagem que foram citadas, ainda favorecem dois pontos cruciais para o desenvolvimento infantil.
   O primeiro é o ritmo, movimento repetido pela criança que sistematiza o passeio que é organizado em etapas facilmente discriminadas em quatro encontros com as pessoas ou os táteis como passadas, pisadelas, manipulação das pedras, ,subir e descer das guias, pisotear as folhas secas , pisar ou pular nas poças de água. O outro, não menos importante, é a autonomia.
   Autonomia é uma construção humana validada pela confiança dada pelos pais de deixar ir. Autonomia diferenciada do abandono por estar envolta no olhar carinhoso, nas mãos ao alcance para o acolhimento na queda ou para ajudar na travessia. Autonomia que se dá pela certeza da capacidade do outro de escolher seu próprio caminho e estar disponível para orientar, acolher ou simplesmente deixar ir
   Essa experiência descrita acima deixa tanto para Tim Tim como para sua mãe outro grande tesouro que me fez ficar com olhos rasos d’água: a memória afetiva. Momentos que jamais serão apagados de nossas retinas tão fatigadas.

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“É que Narciso acha feio o que não é espelho”

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Quando Caetano Veloso desembarcou em São Paulo, na década de 60, com os novos baianos, descreveu nessa frase o estranhamento que sentiu em encontrar uma cidade fora dos padrões por ele conhecidos na época.

Desde de lá, muita água já passou por baixo e por cima da ponte. A luta entre classes sempre pautou as disputas para a formação da identidade de São Paulo. Ouvi muitas vezes pessoas próximas na própria família dizendo que os nordestinos acabaram com a cidade, numa referência da absorção única e necessária da mão de obra, que construiu a infraestrutura da cidade na década de 70, coincidindo com o período da seca devastadora do Nordeste.

E as brigas foram se sucedendo, aceitam-se sim domésticas, porteiros, pedreiros, mas a sua cultura, música, arte e comida só quando estamos no papel de turistas! Então, o Nordeste vira cult.

E aí, chega o Haddad, prefeito com muitas falhas como todos os que passaram e passarão, pois todos são humanos. Mas, trouxe consigo uma visão de cidade compartilhada, de direitos iguais e aí a coisa apertou.

Aqueles que ainda gritavam achando que a cidade é deles, se enfureceram: Como assim, a av. Paulista parque!? Como uma praia em que todos podem circular e aproveitar o domingo!? Numa das regiões mais nobres da cidade?

Sua gestão acabou e os enfurecidos se juntaram aos desinformados e agora está ele, Doria Gray, com sua visão de beleza estéril, cirúrgica, eugênica.

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/09/opinion/1483967301_829259.html

As pessoas que o aprovam, aprovam e defendem que os grafites sejam apagados, foram aqueles que amaram a abertura das Olimpíadas menos a parte do funk, das imagens do morro e da participação da Anitta. “Meu país é o da Bossa Nova e não esse aí.

São aqueles que estão dentro de seus condomínios assépticos, usufruindo do trabalho dos moradores da periferia e não têm a menor ideia de onde e como vivem.

A arte dos grafites e da pichação é arte sim e existe para provocar essa náusea, de olhar para o espelho e ver não sua imagem, mas a sua sombra.

Porque o São Paulo e o Brasil é tudo isso e muito mais.

“Por que és o avesso do avesso do avesso do avesso..”

 

 

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“É que Narciso acha feio o que não é espelho”

narcisoQuando Caetano Veloso desembarcou em São Paulo, na década de 60, com os novos baianos, descreveu nessa frase o estranhamento que sentiu em encontrar uma cidade fora dos padrões por ele conhecidos na época.

Desde de lá, muita água já passou por baixo e por cima da ponte. A luta entre classes sempre pautou as disputas para a formação da identidade de São Paulo. Ouvi muitas vezes pessoas próximas na própria família dizendo que os nordestinos acabaram com a cidade, numa referência da absorção única e necessária da mão de obra, que construiu a infraestrutura da cidade na década de 70, coincidindo com o período da seca devastadora do Nordeste.

E as brigas foram se sucedendo, aceitam-se sim domésticas, porteiros, pedreiros, mas a sua cultura, música, arte e comida só quando estamos no papel de turistas! Então, o Nordeste vira cult.

E aí, chega o Haddad, prefeito com muitas falhas como todos os que passaram e passarão, pois todos são humanos. Mas, trouxe consigo uma visão de cidade compartilhada, de direitos iguais e aí a coisa apertou.

Aqueles que ainda gritavam achando que a cidade é deles, se enfureceram: Como assim, a av. Paulista parque!? Como uma praia em que todos podem circular e aproveitar o domingo!? Numa das regiões mais nobres da cidade?

Sua gestão acabou e os enfurecidos se juntaram aos desinformados e agora está ele, Doria Gray, com sua visão de beleza estéril, cirúrgica, eugênica.

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/09/opinion/1483967301_829259.html

As pessoas que o aprovam, aprovam e defendem que os grafites sejam apagados, foram aqueles que amaram a abertura das Olimpíadas menos a parte do funk, das imagens do morro e da participação da Anitta. “Meu país é o da Bossa Nova e não esse aí.

São aqueles que estão dentro de seus condomínios assépticos, usufruindo do trabalho dos moradores da periferia e não têm a menor ideia de onde e como vivem.

A arte dos grafites e da pichação é arte sim e existe para provocar essa náusea, de olhar para o espelho e ver não sua imagem, mas a sua sombra.

Porque o São Paulo e o Brasil é tudo isso e muito mais.

“Por que és o avesso do avesso do avesso do avesso..”

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A era da cooperação

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Recentemente assisti ao documentário I am, escrito e dirigido por Tom Shadyak, (diretor conhecido por grandes sucessos de Hollywood como Ace Ventura, O Todo Poderoso, entre outros), O documentário foi produzido  depois  que ele sofreu um acidente muito grave que o deixou em coma. Após ter vencido o lado mais escuro dessa situação, ele conta que ampliou sua visão de mundo e resolveu sair em busca de respostas para duas  perguntas:  o que está errado em nosso mudo e o que podemos fazer.

Nessa busca ele conversou com filósofos, cientistas, poetas, ativistas , religiosos e chegou  a uma conclusão: o homem é um ser cooperativo.

Mas o modo de vida que escolhemos viver nos afasta dessa essência. Entre os argumentos que utiliza para embasar essa ideia, o cientista Thomas Hartman diz, por exemplo, que a teoria da evolução de Darwin  foi mal interpretada, em seu livro A evolução do homem  a palavra amor aparece 95 vezes em seus escritos, e a sobrevivência do mais forte aparece apenas 2 vezes  e Hartman completa dizendo que democracia e cooperação estão em nosso DNA.

Com essa exemplo e outros mais, o documentário nos mostra com clareza que precisamos voltar rapidamente a nos enxergarmos como uma unidade coletiva, que pode salvar a si própria da extinção, que parece inevitável caso não paremos com a autodestruição que estamos nos impondo.

A palestra de Suzanne Simard, Como as árvores falam, mostra recentes pesquisa que comprovam que uma floresta tropical é uma rede de contatos recíprocos que se comunica e que fornece alimento e energia entre si para manter esse ecossistema vivo e saudável.

https://www.youtube.com/watch?v=EdaIcKG3Zms

Se pensarmos em educação, fica patente a necessidade de voltarmos nossos olhos para um sistema educacional que reproduz as relações sociais doentes e que através da instituição da escola, perpetua esse status quo.

O pacote de avaliações e notas estimula a competição e separa as crianças contra sua natureza. É comum na fase pré-escolar termos crianças colaborativas e empáticas que se modificam quando atingem a idade em que são avaliadas e recebem notas.

Essa rotulação começa a delinear as elites e guetos sociais. O efeito da comparação onde um é melhor e o outro é pior tem feito com que as crianças adoeçam cada vez mais cedo. A preocupação e o empenho dos pais para que os filhos sejam perfeitos tem causado sérios danos.

Para a socióloga Brene Brown investiga o porquê de algumas pessoas são mais felizes e de que maneira essas pessoas felizes tem mais conexões em suas relações, Ela descobriu que as pessoas que tem uma maior sensação de merecimento, de amor e pertencimento, aceitam sua vulnerabilidade. Para viverem com o coração pleno, essas pessoas entendem que precisam parar de pedir garantias e  de tentar prever o futuro.

https://www.ted.com/talks/brene_brown_on_vulnerability?language=pt-br

Deixemos nossas crianças serem felizes dentro de sua singularidade, entendamos que cada um de nós temos muito que acrescentar no mundo contribuindo com o melhor que temos para oferecer acolhendo o que o outro como acolhemos a nós mesmos.

Aceitar que somos interdependentes e que somente através da cooperação poderemos construir um mundo melhor, é dever de todos nós e a escola tem muito a contribuir com isso.

 

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Sobre castigos e reparação

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A adolescência é um grande desafio não só para a família mas para a sociedade de um modo geral.

A neurociência sinaliza essa fase como de reconfiguração das sinapses. Aquela criança que amava e até mesmo idolatrava seus pais, agora os vê com estranhamento. O amor antes cego, agora tem que ser reconquistado em outros níveis. Os pais são vistos como seres de carne e osso e têm que reconquistar o sentimento a admiração e o respeito dos filhos de antes.

Se essa situação não fosse complicada por si só, comportamentos inadequados e inesperados farão parte da rotina familiar. O garoto ou a garota tornam-se desajeitados, mau-humorados respondões. Aquela pseudo harmonia é demolida dia-a-dia.

Segundo Rodrigo Sartorio mestre em neurociências: “A diminuição das áreas de recompensa do cérebro expõe os adolescentes aos comportamentos impulsivos próprios da idade, mas principalmente ao uso de drogas abusivo, entre elas o álcool, as drogas estimulantes, que aumentam as concentrações de dopamina na fenda sináptica, e o tabaco, que coopta amplas áreas do cérebro, incluindo os sistemas de recompensa e apresenta alto potencial aditivo.” (http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2012/05/desenvolvimento-neural-e-comportamental.html0

Simultaneamente a esse turbilhão biológico e familiar, o jovem inicia sua vida social independente. Há uma variação no grau de liberdade que cada família proporciona ao adolescente, mas, de um modo geral, idas ao cinema e ao shopping, dormir na casa de amigos são práticas comuns nessa faixa etária.

O grande desafio dos pais ao meu ver é dosar a liberdade e aliá-la a responsabilidade. Fazer com que o jovem entenda que a liberdade e a responsabilidade são irmãs gêmeas é uma tarefa hercúlea. É nesse aspecto que vamos tratar a questão de castigo e reparação.

Para a discussão, usarei o caso de obtenção de boas notas na escola. Bem no momento de transformação do filho é comum que os pais utilizem a escola e as notas como moeda de troca nas relações com seus adolescentes;  e é aí que as batalhas acontecem.

As questões de escola e nota devem ser ampliadas, o universo escolar , por mais que se façam críticas, é o primeiro ambiente fora do doméstico em que a criança terá que se relacionar. Questões como compromisso, engajamento, responsabilidade transcendem as questões de notas, provas e afins. Posturas inadequadas quanto ao trato com os colegas e professores devem ser pontuadas como ensaio para a vida em sociedade. Burlar essas regras é normal nessa fase mas inadmissível na vida em sociedade; sinalizar o que é certo e errado, mostrar o binômio causa/consequência é fundamental.

 

Castigo tem a ver com uma resposta rancorosa e vingativa dos responsáveis diante de uma falta mais do que com a falta propriamente dita, por isso o castigos desvinculam-se das faltas. Perder uma viagem de formatura por não fazer as tarefas de casa é um exemplo.

O diálogo e o significado das obrigações devem fazer parte de um contrato social, explicito ou implícito. Esse contrato é o caminho que norteia a família no conceito de reparação.

Quando o jovem entende que respeitar os mais velhos, fazer as atividades domésticas, cumprir as tarefas escolares, atender às chamadas de celulares dos pais, avisar onde vai, se chegou, etc, são ações justificadas como práticas que permeiam o mundo adulto e que tem muito mais a ver com respeito, solidariedade, comprometimento, são mais do que regras vazias destituídas de sentido ou que representam apenas autoritarismo dos adultos.

Reparar essas faltas é retornar para o caminho do Bem e para adequação aos valores sociais. As reparações decorrentes dessas faltas devem acontecer de modo a atentar o jovem a esses valores.

A vida em grupo com adolescentes oriundos das mais diversas educações podem nublar os valores familiares e colocar em cheque os porquês que os consolidaram. Educar e orientar essa faixa etária é estar disposto a revisitar e refazer esses valores agora a partir de diálogos francos.

De acordo com a psicopedagoga Stefânia Lonza : ” ao adotar uma nova postura com o filho que cometeu o deslize,  espera-se que,consequentemente, a devolutiva dele,  sejáaoutra; a maior rigidez e a maior exigência diferente do que ele estava acostumado pelos responsáveis  vai fazer com que ele dê um tempo (reflita) nas atitudes que ele estava fazendo.

Outro ponto importante nesse contexto é a questão do tempo para os jovens. , a dúvida de até quando essa nova dinâmica (os pais solicitando reparações)  auxilia na reflexão, pois um castigo é definido e administrável, a reparação dependerá da atitude do adolescente, ou seja, a dica é que os responsáveis usem o tempo a seu favor, mobilizando a vontade de mudança do adolescente.

Pensemos na figura de um carretel, a figura de enrolar e desenrolar a linha. A liberdade e reparação sob o ponto de vista dos pais é a administração desse carretel. Notas ruins são fatos em si, mas a causa pode ser ampla, o castigo não corrige a causa, mas a reparação deve ser orientada de forma que o jovem use sua vontade e tempo para resolver o problema. Na prática, os pais soltam ou recolhem a linha dando a oportunidade da apreensão da liberdade; as vezes  os pais ao soltar a linha antes do jovem estar preparado pode ter sido a causa de deslize, complementa o raciocínio .Stefânia Lonza.

Como pais é fundamental:

  • Compreender as capacidades e vulnerabilidades de nossos filhos
  • Manter um ambiente de segurança, onde o adolescente se sinta livre para expressar suas inquietações.
  • Oferecer a eles independência, mas sem ser permissivos.
  • Falar de nossas experiências juvenis, porque eles podem tomar como referências  importantes para sua maturidade cerebral.
  • Alimentar de maneira positiva a forma como tomam decisões com  base em situações cotidianas.
  • Valorizar a importância da educação como base para um futuro gratificante.

 

Acredito que a mudança de linguagem é um dos caminhos para desmanchar esse emaranhado. Tratar ou referir-se ao jovem como uma criança de 8 anos apenas potencializa a infantilização do adolescente em crise que está tentando superar essa mudança de fase criança X adulto.Promover diálogos debatendo as questões familiares e demonstrando os valores que norteiam esse círculo podem esclarecer alguns pontos.

 

 

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Natal, sobre presentes e estar presente!

 

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Enfim é Natal!
E consciente ou inconscientemente começamos a elaborar listas e fazer cálculos sobre os presentes que vamos comprar.
Com crise ou sem ela, queremos nos reunir perto da árvore de Natal e posar para aquela propaganda de refrigerante que promete felicidade!
Mas os tempos são outros, não podemos virar as costas e fingir que não sabemos dos trabalhadores explorados em condições desumanas para produzirem cada vez mais e saciarem o nosso desejo de consumo.
Precisamos nos educar e educar nossos filhos com o conceito de funcionalidade. As coisas nos servem para um propósito e uma necessidade específica: celulares para comunicação, televisões para entretenimento, roupas para vestimenta e assim por diante.
Não podem servir para tapar buracos e encobrir nossas falhas. Não podemos substituir as relações pessoais por coisas.
Segundo a especialista em economia criativa Lala Deheizelin, o ter não nos satisfaz; estamos entrando na época em que qualidade de vida quer dizer tempo. Tempo de conviver, tempo de cuidar…
Portanto, fica a dica nesse Natal compartilhe seu tempo com as pessoas que você ama, doe-se, seu melhor presente é estar presente!
http://gnt.globo.com/programas/papo-de-segunda/videos/4676004.htm

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Adolescência – MITOS 2

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Meu filho não pode andar sozinho, o mundo está muito perigoso. MITO!

Os adolescentes precisam ser educados para sobreviverem no seu mundo. Se puxarmos pela memória, vamos nos lembrar de que nossos pais também temiam por nossa segurança e que nós sobrevivemos! Acredito que o que nos distancia dessa geração, da qual nossos filhos fazem parte, é a insegurança de pais e a desesperança com o modelo de sociedade que se estabeleceu.

Realmente a violência existe, entretanto não podemos criar nossos filhos dentro de uma redoma. A vida está aí para ser vivida e postergar esse contato com o mundo é adiar o problema e deixar de oferecer as ferramentas para tal. A bem da verdade, o que “pega” é a nossa insegurança. Para preparar nossos filhos para que tenham instrumentos para se relacionar com esse mundo, a segurança que nós, pais, depositamos neles é parte fundamental nesse processo! É válido salientar que essa confiança deve ser conquistada através de responsabilidades, que gradativamente o jovem deve assumir. A total liberdade pode representar uma ideia equivocada de abandono.

O jovem precisa se sentir cuidado e querido, aí sua independência terá o significado de uma conquista pessoal e não da simples outorga dos pais. Acho interessante o diálogo com os jovens que começam a pedir para fazerem passeios desacompanhados dos pais. Esclarecer a eles que, por lei, antes dos 12 anos o adolescente não pode andar sem a companhia dos pais, e que em sua ausência deve haver um maior responsável, é um bom início para esse bate-papo. Ensinar a eles a importância de levar documentos para serem identificados nas situações mais diversas também os faz cidadãos!

Permitir que o garoto ou garota viaje com a família de amigos demanda que eles entendam que esses combinados devem ser feitos entre adultos, para que os pais possam analisar se é conveniente e que assim possam conhecer a família para que a viagem seja permitida. Esse procedimento demonstra o amor e o cuidado que os pais devem ter com os filhos e entre linhas fará que o jovem entenda a importância que ele tem nesse núcleo familiar.

Deixar que ele vá até a padaria ou supermercado próximo fazer pequenas compras são oportunidades para ele adquirir autoconfiança e para os pais orientarem como ele deve se portar quando está sozinho. O trajeto deve ser feito sempre, pela primeira vez, com o adulto que irá salientando detalhes que devem ser notados, como observar o seu entorno, atentar para as calçadas onde os carros estacionam, não utilizar fones de ouvido para perceba os sons ao seu redor e outras tantas dicas valiosas, que serão úteis por toda vida.

Outra questão a ser analisada é o tempo de deslocamento. Se seu filho começará a voltar da escola sozinho é importante saber em quanto tempo ele deve chegar. Por mais que pareça controle, é importante que ele saiba que não está “solto”, para fazer o que quiser.

Levar os filhos e depois ir buscá-los em festas ou no shopping é uma ótima maneira de sabermos quem são seus amigos e que tipo de conversa eles tem. Segundo o autor argentino Sérgio Sinay, ter um filho é um acidente biológico, mas sermos pais é um projeto trabalhoso, que deve ser feito com critério.

Antes de terminar gostaria de “pôr o dedo em mais uma ferida”: muitas vezes relutamos em deixar nossos filhos viverem suas próprias vidas por medo de nos tornarmos desnecessários. Durante a infância, fomos seus super-heróis e agora viramos expectadores de suas vidas. As coisas não são tão simples. Precisamos educar jovens maduros emocionalmente e dar liberdade e demonstrar confiança em suas escolhas é um ótimo começo. Devemos nos lembrar sempre que a educação é um processo e a adolescência é um crescimento de duas vias.

É fundamental adolescermos com nossos filhos e nos transformarmos em pais de adolescentes. Muitos pais negam esse curso natural da vida e os conflitos que virão naturalmente serão intensificados quando os papéis não se modificarem. Se os pais permanecerem com a mentalidade de pais de crianças pequenas ou de “solucionadores de problemas”, os adolescentes oscilarão entre bebês e adultos precoces, sem saberem como devem agir para encontrarem seu lugar no mundo.
Para finalizar, o tempo com eles é curto e quando nos dermos conta, eles já estarão indo para a faculdade, estarão namorando e trabalhando. Por isso temos que instrumentalizá-los para a vida social. Protelar o inevitável é impedir o amadurecimento e deixar de prepará-los para o futuro.

 

 

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